Ferramentas e Recursos para restauração da Alma

 

Transferência

Transferência:
“Ovelhas Vestidas Como Lobos”
David Kornfield
 
1. Perigo para a Igreja
 
Valerie McIntyre, em seu livro Sheep in Wolves’ Clothing (Ovelhas Vestidas Como Lobos, Hamewith Books, 1996), trata da dinâmica da transferência.  O subtítulo do livro é: Como a Carência Oculta Destrói tanto a Amizade quanto a Comunidade e o que Fazer a Respeito.  Ela já experimentou ser uma ovelha agindo como lobo quando passou por experiências difíceis de transferência com uma líder amiga em sua igreja.  O livro explica com detalhes a perspectiva de alguém que é ovelha, mas que acaba agindo como lobo e o processo árduo da restauração.
 
O Baker Encyclopedia of Psychology dá esta definição da transferência: “Alguém no presente é experimentado como se fosse alguém do passado.  As atitudes e emoções, sejam positivas ou negativas, que pertenciam a uma relação anterior, são transferidas a uma nova pessoa no presente” (Baker Book House, 1985:1173).  Geralmente envolve uma relação que a pessoa teve quando criança com outra que era chave em sua vida, mas deixou muito a desejar (pai, mãe etc).
 
A transferência tem seu lado positivo enquanto projeta em alguém o cumprimento de tudo o que lhe faltou no passado. Mas torna-se negativa no momento em que passa a atribuir motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos a esse alguém, baseado no relacionamento ruim do passado, e não na realidade atual e a pessoa idealizada não consegue preencher todas as expectativas. Isso quase sempre acontece se a transferência não for confrontada enquanto positiva.  Pastores e líderes de igrejas facilmente tornam-se objetos de transferência. E não podem ficar alheios diante de tão poderosa ferramenta de destruição.
 
Leanne Payne, no prefácio do livro de Valerie McIntyre, descreve a transferência de forma espiritual:
 
“A alma traumatizada pela sua própria pecaminosidade, ou pela de terceiros, pode reprimir ou separar-se de seu próprio pecado e trauma, inclusive de suas próprias emoções.  Posterior-mente, através da transferência negativa, esta “maldade” separada é projetada em cima de outros” (pág. 4).
 
Uma pessoa em transferência pode tornar-se altamente destrutiva, trazendo divisão a uma igreja ou forçando o pastor a sair.  Valerie afirma que a maioria das vezes que um pastor é forçado a sair de sua igreja ou a mesma se divide, a dinâmica da transferência está por trás,  mas sem ser reconhecida.  Transferência é um mecanismo de defesa inconsciente.  Logo, as pessoas podem fazer coisas terríveis sentindo que estão fazendo a vontade de Deus.
 
Lembro-me de quando estava pastoreando uma igreja e, ao voltar de uma viagem, encontrei minha esposa em prantos.  Um membro da igreja entregou uma carta datilografada de doze páginas em nossa casa em minha ausência e também a entregou para muitos membros da igreja. A carta foi apresentada como uma “profecia”, acusando-me de muitas coisas terríveis e dizendo que eu deveria deixar o pastorado.  Quando me sentei com a pessoa que distribuiu essa carta na igreja, perguntei-lhe se havia evidência de alguma vez eu ter agido da forma que ele afirmava na carta.  Ele disse que não e acrescentou que era exatamente por isso que estava convencido de que a carta vinha de Deus, já que não tinha nenhuma base na experiência dele.  Na época, eu não entendia as dinâmicas psicológicas; só sabia que eu estava enfrentando a pior batalha espiritual que já enfrentei.  O resultado final dessa batalha foi minha saída da igreja e, um ano depois, a dissolução da mesma.  Outros com experiência neste campo dizem que transferência tem sido a base para a pior batalha espiritual que já conheceram.  Além de ataques emocionais e espirituais, nos piores dos casos, pode chegar a incluir ataques físicos e legais.
 
Esse problema está crescendo rapidamente.  Eu o enfrentei em 1984 e não experimentei mais transferências na década seguinte, em parte por que não continuei como pastor.  Mas nos últimos anos, eu e minha esposa temos sido alvo de ataques que discernimos ter base na transferência da parte de várias pessoas. Parece que o número de pessoas profundamente feridas tem crescido de forma assustadora.  Quase todo pastor tem experimentado esse tipo de ataque e o experimentará de novo nos seguintes dois ou três anos.  Precisamos entender bem a dinâmica da transferência e como podemos tratar a pessoa que está agindo dessa forma.
 
2. Diagnóstico de Transferência
 
Abaixo, descrevemos o perfil de alguém que está em transferência (extraído de Sheep in Wolves’ Clothing e parte de minha experiência).  Para facilitar o entendimento, chamaremos de Pedro a pessoa que está em transferência, e de João aquele que sofre os ataques da transferência.
 
1. Trauma emocional sério no passado, especialmente nos primeiros anos de vida, podendo ter sentido uma separação ou rejeição profunda da parte de sua mãe ou seu pai.  Pedro pode ter experimentado muita privação emocional nesta fase.
 
2. Projeção. Pedro projeta sentimentos e motivações negativas (ou positivas), atribuindo-os ao objeto de transferência, a vítima João.  Às vezes, considerando que João não é perfeito, essas acusações até têm alguma verdade, mas a intensidade com que são percebidas está longe da realidade.
 
3. Crítica explícita ou escondida.  Pedro faz fofocas contra João, levantando partidários que concordem com ele.  De forma sutil, sem que percebam a estratégia, outras pessoas alinham-se contra o objeto de transferência, João.
 
4. Orgulho. Pedro não consegue admitir que tem defeitos ou problemas, só os enxerga nos outros.  Seu orgulho é tão forte que pode se expressar como narcisismo: um amor próprio que o leva a uma opinião exageradamente alta sobre si.
 
5. Cobiça ou ciúmes. Pedro sente-se ameaçado pela possibilidade de outra pessoa tomar o lugar que ele aspirava, seja uma posição na igreja ou ser o amigo mais próximo de João.
 
6. Mentiras, engano e calúnia são os meios pelos quais Pedro defende sua perspectiva, chegando a acreditar em suas próprias palavras.  O auto-engano é tão profundo que ele nem percebe o que está fazendo de errado.  Quando essas mentiras, exageros e enganos são revelados, Pedro não acha que isso tem importância diante do que está procurando provar.  Por meio destas mentiras, Satanás começa a ganhar espaço na vida de quem dá ouvidos a Pedro.
 
7. Raiva exagerada e sem base real contra João, que cresce na proporção em que o objeto de transferência não se submete aos desejos de Pedro.
 
8. Controle, domínio e manipulação. Pedro não respeita as outras pessoas, supondo que as mesmas, especialmente o João, devem fazer o que ele quer.  Não tem um entendimento saudável sobre os limites entre sua personalidade e a de outra pessoa.
 
9. Solitário. Pedro trabalha melhor sozinho.  Por não estar ligado a suas próprias emoções, ele pode ou não se sentir solitário. Pode até ficar deprimido, mas não reconhece o fato. Pode criar intimidade falsa com outras pessoas, mas eventualmente se isola, pois não consegue confiar em ninguém e também não é confiável.
 
10. Conflitante. Pedro percebe, projeta e cria conflitos com outras pessoas.  Faz uma tempestade num copo d’água e procura sentar com o João para “resolver nossos conflitos”. Esses conflitos não existem na realidade, estão na cabeça de Pedro.
 
11. Faccioso. Pedro desenvolve um grupo que o apóia, concordando que João tem agido mal, principalmente em relação a ele.  As pessoas influenciadas começam a distanciar-se de João.  Se essas pessoas também tiverem feridas não tratadas, um grupo inteiro pode entrar em transferência.  Esse espírito faccioso ou litigioso é bem ilustrado por Absalão (2 Sm 15.18).
 
12. Máscara de vítima.  Com esta máscara, Pedro manipula outras pessoas para assumirem sua briga e defendê-lo.
 
13. Idolatria.  Pedro coloca João como o máximo em sua vida ou a pessoa messiânica que deve resolver todos os seus problemas.  Quando a transferência se torna negativa, Pedro enxerga João como herético, perigoso, desviado, frio, carnal e projeta muitas de suas próprias emoções ou problemas sobre João.  Às vezes, essa idolatria pode ser sobre certa doutrina, Pedro tornando-se o grande defensor dela em detrimento de outra.
 
14. Repressão emocional, com ocasionais descargas.  Geralmente, Pedro não é muito emotivo, mas em qualquer momento pode ter uma crise de raiva, choro ou ansiedade, ou escrever uma carta de muitas páginas contra João, difamando-o.
 
15. Carente de afirmação. Pedro tem uma grande necessidade de ser reconhecido e valorizado.  Às vezes, ainda que critique João, ele pode procurar consolo, segurança, compreensão e instrução de João, assim como uma criança procura isso de seus pais.
 
16. Resistência.  Pedro resiste à liderança da igreja e a toda pessoa que não concorde com ele.  Não é ensinável.  Ele precisa experimentar um quebrantamento profundo que o leve a entender os seus problemas sérios.
 
17. Aflição demoníaca.  Muitas brechas indicadas acima permitem que Satanás aflija Pedro.  Além disso, Pedro torna-se um meio de Satanás afligir João e, possivelmente, a igreja toda, trazendo divisão ao Corpo.
 
3. Dicas de Tratamento
 
Para que haja restauração é preciso o entendimento de que o processo é demorado, tomando entre seis meses e dois anos, se a pessoa se entregar de coração ao tratamento. Os seguintes passos são essenciais:
 
1. Quebrantamento e arrependimento. O tratamento começa quando Pedro reconhece que seu coração pecaminoso e ferido está se expressando em transferência, através da raiva, crítica destrutiva, fofocas, etc. Ele precisa comprometer-se com Deus a ser ensinável.  Existem muitas formas de confronta-lo em amor, geralmente direcionadas por dois ou três líderes que ele respeita.  Uma estratégia é repassar, juntos, uma cópia da descrição de transferência acima.  Cada um anota, na margem da lista, as características que tem visto na vida de Pedro e, depois, todos compartilham entre si.  Isso pode ajudá-lo a entender a seriedade de seus problemas, como também pode torná-lo mais resistente ainda, demonstrando se é ou não candidato para o tratamento nesse momento.  Se Pedro estiver verdadeiramente arrependido, deve pedir perdão e comprometer-se a fazer restituição.  Além do arrependimento inicial, deve continuar arrependendo-se quando outras expressões de pecaminosidade se revelarem no percurso do tratamento.  Um dos frutos principais de verdadeiro arrependimento é uma atitude ensinável.
 
2. Assumir responsabilidade. Pedro precisa assumir os mexericos, a calúnia e o espírito faccioso que ele tem divulgado e corrigir os estragos feitos, na medida do possível.
 
3. Sofrimento. Geralmente, para que alguém em transferência perceba a seriedade de seu problema, terá que sofrer as conseqüências do mesmo.  Perder uma posição de liderança ou ser impedido de ministrar publicamente, junto ao confronto indicado acima, pode levá-lo a entender a gravidade da situação.  Sem sofrer, ele provavelmente continuará achando que a sua vida está numa boa e não estará aberto a mudanças.
 
4. Submissão a um líder espiritual. A igreja deve indicar um conselheiro ou líder pastoral, que seja maduro, equilibrado, amável, objetivo e firme, com quem Pedro concorda trabalhar, para ajudá-lo, corrigindo e confrontando em amor quando se fizer necessário. Deve encaminhar Pedro a um programa claro de restauração, como o trabalho dos Doze Passos, indicado nos livros Aprofundando a Cura Interior, volumes 1 e 2, de minha autoria (Editora Sepal), e levar a sério o compromisso de reunir-se com ele regularmente.  O líder normalmente deve limitar seus encontros formais com o Pedro a uma vez por mês, para não acabar se estressando.
 
5. Limites objetivos. O líder espiritual deve esclarecer a Pedro os limites que deve respeitar.  Por exemplo, podem ser limites quanto a ministério público, expectativas irreais ou o tempo que ele quer com o líder, o pastor ou outras pessoas.
6. Afastamento do João. O objeto da transferência, João, não pode fazer parte do tratamento. Deve distanciar-se emocional e fisicamente de Pedro, se for possível, ficando sem qualquer contato até que Pedro e seu líder espiritual indiquem claramente que a transferência foi resolvida.  No caso de algum contato entre eles, João deve falar muito pouco e de forma objetiva, estabelecendo limites claros e objetivos, distanciando-se de Pedro.  Se Pedro quiser resolver alguma coisa com João, só seria possível se o líder orientador achar que o problema realmente existe e intermediar a reunião.
 
7. Tratamento emocional especializado. Pedro deve encontrar-se semanalmente com um psicólogo cristão e/ou um grupo de apoio ligado ao ministério de restauração da alma.  O líder orientador de Pedro deve manter-se em contato com o líder desse ministério e/ou psicólogo.  Na medida que Pedro caminha em direção à maturidade, as memórias e emoções reprimidas virão à tona e precisarão ser trabalhadas.
 
8. Compromisso profundo com a verdade. Só uma grande dedicação à verdade liberará Pedro dos enganos e mentiras que se estabeleceram em sua vida como fortalezas.  Essa dedicação deve ser intencional, explícita e comprometida.  Pedro deve dedicar-se ao estudo da Bíblia, pois precisa estar imerso em verdade objetiva.  Ele tem uma tendência a usar a Bíblia como uma arma contra outras pessoas, mas agora o estudo deve focalizar sua própria vida, seus sentimentos e pensamentos (Hb 4.12).
 
9. Exercício de escrever. Pedro deve escrever seus pensamentos e sentimentos regularmente e pedir que Deus revele quais correspondem à verdade.  Já que sua mente está muito ofuscada com o engano, este exercício é indispensável para discernir entre a mentira e a verdade e andar nesta.
 
10. Renúncia. Pedro deve renunciar qualquer ídolo que ele permitiu ganhar espaço em seu coração e toda aflição demoníaca. Pode procurar a ajuda de seu líder orientador ou a equipe de restauração da alma. Deve entender que ele é o foco da batalha espiritual e tomar providências, combatendo rigorosamente aos pensamentos distorcidos e maléficos.
 
11. Reconhecer erros. Ele deve reconhecer seus pecados e arrepender-se deles, pedindo perdão e fazendo restituição.  Ele também precisa reconhecer suas percepções irracionais, mentiras e enganos e arrepender-se disso.
 
12. Discernir futuras transferências. Pedro deve discernir quando outra transferência estiver começando e identificar quais são seus sentimentos, pedindo a Deus que revele o motivo pelo qual está conectando algo do presente com problemas ou sentimentos do passado.
 
4. Implicações para a Liderança da Igreja
 
Qualquer relacionamento semelhante ao de pai e filho torna-se vulnerável à transferência.  Logo, a relação líder e liderado é passível deste mal. O objeto de transferência (a vítima) normalmente é um líder que nutre e cuida de outras pessoas, estendendo amor e carinho a elas.  Por isso, o pastor, ou qualquer outro líder, que tiver essas caraterísticas é propenso a ser o alvo de ataques emocionais, que não podem ser simplesmente respondidos de forma lógica.  Algumas implicações para a liderança da igreja incluem:
 
1. Identificar os líderes suscetíveis a serem objetos de transferência, prontificando-se a dar-lhes uma cobertura ou proteção especial se começarem a ser atacados.  Tal proteção deixará muito claro para Pedro que ele não poderá manipular a liderança contra João.  Isso limitará os ataques de Pedro e a destruição que pode causar.
 
2. Ensinar e orientar toda a liderança da igreja sobre a transferência. Os líderes jamais devem admitir queixas “anônimas”.
 
3. Unidade entre os líderes.  A liderança pastoral precisa ter uma relação comprometida e pessoal, onde o amor e a verdade fluem.  O confronto em amor, a facilidade de confessar erros e a oração sacerdotal de um para o outro (Tg 5.16) devem caraterizar a liderança.  Ela até pode fazer uma aliança de proteger um ao outro, ir diretamente um ao outro quando tiver dúvida ou sentir que algo pode estar errado, e não deixar que nenhuma brecha surja entre eles.  Se a liderança não se cuidar nesse sentido, Satanás terá um campo fértil para trazer divisão à igreja, com ou sem a ajuda de alguém como Pedro.
 
4. Discernir a raiz dos conflitos. Quando conflitos surgem com alguém que está em transferência, não podem ser resolvidos como conflitos normais (segundo Mt 18.15-17 e de forma lógica). Uma vez que descobrimos a dinâmica da transferência, precisamos entender que não estamos diante de um conflito normal entre duas pessoas, baseando suas perspectivas na realidade.  Pedro não está se baseando na realidade e não está agindo de forma lógica, ainda que encubra seus sentimentos com uma fachada lógica.  Os meios normais de resolver conflitos não funcionam.  Pelo contrário, são capazes de agravar a situação, dando liberdade, e até apoio, para Pedro caluniar outras pessoas.
 
5. Estar alerta quanto a facções.  A liderança precisa dar uma cobertura e orientação especial às pessoas que são mais suscetíveis a serem levadas a apoiar Pedro.  Essas pessoas podem ser:
• Aquelas cujas delimitações emocionais e intelectuais estão fracas, pessoas que facilmente podem assumir os pensamentos e as emoções dos outros, como se fossem delas mesmas.
• Cristãos imaturos com pouco discernimento, mas que respeitam a autoridade ou cargo de Pedro.
• Os mais chegados a João, porque Pedro pode procurar trazer essas pessoas contra ele.  (Por exemplo, uma pessoa em transferência com minha esposa começou a criticá-la para minha filha, procurando ganhar uma aliada.)
• Aquelas que tendem a identificar-se e compadecer-se com pessoas feridas, como, por exemplo, os que têm o dom de misericórdia.
• Aquelas que têm problemas emocionais semelhantes.
 
6. Discernir batalha espiritual. Pessoas que trabalham na área de transferência dizem que nunca encontraram batalha espiritual tão terrível como a que é gerada por transferência não reconhecida.  Como já indicado, tal batalha facilmente pode levar à divisão de uma igreja ou  forçar o pastor a sair.  Quando algumas pessoas na igreja começam a aceitar as mentiras e enganos de Pedro como uma perspectiva válida, Satanás tem uma plataforma legal para causar divisão.  A liderança tem que se manter unida e fazer o possível para que isso não aconteça, inclusive pedir que as pessoas que tomaram parte na calúnia reconheçam seu erro e arrependam-se.
 
7. Discernir os disfarces. Pedro pode mascarar suas atitudes de várias formas:
• Como uma boa causa.  Neste caso, ao invés de fazer alguma coisa para resolver problemas, reclama da falta de ação dos demais.
• Como uma cruzada moral, revelando os “problemas” (fruto de sua projeção) do líder.
• Como relacionamento terapêutico, apresentando-se como conselheiro, levando outros a expressarem seus “próprios” sentimentos em relação ao objeto de transferência.
 
8. Reconhecer suas fraquezas. A liderança precisa entender suas próprias fraquezas, incluindo as emocionais.  Sugiro que a mesma participe do curso Introdução à Restauração da Alma (livro de minha autoria, Editora Sepal).  A maioria dos líderes não está consciente de suas fraquezas emocionais e das formas pelas quais traumas e feridas do passado podem mexer profundamente nas suas vidas no presente.
 
9. Ministrar para o objeto de transferência (João). Alguns líderes, após algumas experiências com transferência, acabam afastando-se emocionalmente de seus liderados e de seus colegas, ou até perdem sua liberdade e eficácia no ministério.  Os ataques que João pode sofrer incluem opressão, bombardeio da mente com acusações demoníacas, semelhantes às calúnias de Pedro, e a perda de amigos, familiares e parceiros ministeriais que acabam se envolvendo na transferência.  Se ele sucumbir, pode afastar-se do ministério para o qual Deus o chamou.
 
Se essas ações da liderança da igreja não surgirem ou, se depois de um período, as pessoas que estão procurando ajudar a Pedro disserem que não podem trabalhar mais com ele, a liderança deve encorajar (ou se precisar, exigir) que Pedro busque essa ajuda em outro contexto, procurando outra igreja.  Parece muito radical, mas não podemos deixar a amargura e a raiva enraizarem-se na igreja (Hb 12.15; Ef 4.25-32), nem as obras da carne, como o ódio, a discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja (Gl 5.19-21; 1 Co 6.8-10).  Paulo alerta de forma muito clara:
“11 Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja... caluniador...  Com tais pessoas vocês nem devem comer...  13 Expulsem esse perverso do meio de vocês” (1 Co 5.11, 13).
 
Devemos fazer o que pudermos para a restauração de tal pessoa, mas se nós não tivermos os recursos para ajudar, a melhor coisa que podemos fazer é encorajá-la a encontrar outras pessoas que tenham mais condições. Também precisamos entender que temos a obrigação de proteger o Corpo de Cristo e não deixar que a liderança se esgote com alguém que tenha o perfil de Pedro e não quer mudar.  Obviamente, para sermos íntegros e éticos, quando Pedro se estabelecer em outra igreja, precisamos comunicar a história dele e uma descrição da transferência para o pastor dessa igreja.
 
Vivemos numa época em que as famílias são cada vez mais desestruturadas e, conseqüentemente, os indivíduos estão cada vez mais traumatizados e feridos. A igreja precisa erguer-se como comunidade terapêutica, o que inclui a formação de laços saudáveis com psicólogos cristãos e a formação de equipes de restauração na igreja local, para ajudar pessoas feridas no tratamento de sua saúde emocional e espiritual.  Que Deus nos dê a graça de sermos uma comunidade que realmente restaura almas e que não somente as evangeliza.  Que a igreja possa ser um lugar onde as palavras de Paulo se cumpram:
 
“Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente.  Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.  Aquele que os chama é fiel e fará isso” (1 Ts 5.23, 24 - NVI).